Como criar uma marca para vender fora do Brasil

Como criar uma marca para vender fora do Brasil As decisões que vêm antes do logo para quem empreende em outro país

Fábio Cambréa, designer de branding

Por Fábio Cambréa, fundador do Estúdio Fábio Cambréa
Atualizado em , leitura de 6 minutos

Caixa de correio verde-petróleo recebendo uma lata e um cartão da marca Seafine, identidade visual criada pelo Estúdio Fábio Cambréa
Seafine, identidade visual do Estúdio Fábio Cambréa para um cliente internacional

Para criar uma marca que vende fora do Brasil, as decisões mais importantes vêm antes do logo: definir para quem a marca fala, testar se o nome funciona no idioma do novo mercado e garantir que a identidade comunique os códigos daquela cultura. Depois, proteger tudo com registro no país onde a empresa vai atuar.

E esse público é grande. O Itamaraty estima 5,29 milhões de brasileiros vivendo no exterior em 2025, com as maiores comunidades nos Estados Unidos, com cerca de 2 milhões, e em Portugal, com 628 mil, segundo o relatório consular do ministério.

Muitos deles empreendem, e as dúvidas sobre marca costumam ser parecidas. Este texto passa por cada uma.

A primeira decisão: sua marca vai ser brasileira?

Antes do nome e das cores, vem a pergunta que muda todo o resto: qual papel o Brasil vai ter na sua marca? Existem três caminhos.

Caminho 1

O Brasil como diferencial

A brasilidade é parte do valor, como em gastronomia, beleza, moda praia ou cultura. O cuidado aqui é não cair no clichê de verde, amarelo e papagaio.

Caminho 2

O Brasil como origem discreta

A marca fala com o público local, e a origem brasileira aparece na história e no jeito de atender, não no logo.

Caminho 3

Uma marca local, criada por brasileiros

Nome e visual pensados para o mercado onde a empresa está, com o olhar de quem chegou de fora e enxerga o que os locais não veem.

Nenhum caminho é melhor que o outro. A escolha depende de quem compra: brasileiros com saudade de casa, o público local ou os dois.

O seu nome funciona lá fora?

Um nome que soa lindo em português pode ser difícil de falar, de escrever ou de encontrar em outro país. Antes de aprovar, passe por este teste:

  1. Pronúncia. Alguém de lá consegue falar o nome depois de ler uma vez?
  2. Significado. O nome, ou parte dele, quer dizer algo estranho no idioma local?
  3. Escrita. Tem ç, ã, õ ou acento? Em teclados estrangeiros e endereços de site, essas letras somem ou viram erro.
  4. Disponibilidade. O domínio, as redes sociais e o registro de marca estão livres no país?
  5. Memória. Dá para soletrar por telefone sem confusão?

Um mito famoso

Você talvez já tenha ouvido que o Chevrolet Nova fracassou na América Latina porque “no va” significa “não vai” em espanhol. O site de checagem Snopes mostrou que isso não aconteceu: o carro vendeu bem no México e na Venezuela, e “nova” e “no va” nem soam iguais. O teste de nome é importante, mas pede método, não folclore.

Mesma palavra, outro país

Nem é preciso mudar de idioma para o sentido mudar. Entre Brasil e Portugal, que falam a mesma língua, algumas palavras comuns significam coisas bem diferentes:

PalavraNo BrasilEm Portugal
PropinaSubornoTaxa paga à escola ou à universidade
CamisolaRoupa de dormirBlusa de frio, suéter
GiroVolta, rotaçãoBonito, interessante
BicaBica d'águaCafé expresso, em Lisboa
RaparigaTermo pejorativo para mulherMoça, jovem
DurexFita adesivaMarca de preservativo

Imagine uma escola no Brasil anunciando “pague sua propina online”, ou uma loja de pijamas chamada “Camisola” em Portugal, onde o nome faria pensar em suéter. Se isso acontece dentro da mesma língua, em inglês, espanhol ou alemão o teste precisa ser ainda mais cuidadoso.

Ilustração de um planeta Terra com duas mãos trocando uma caixa de encomenda entre continentes

A identidade conversa com a cultura local?

Uma identidade visual carrega códigos que nem sempre viajam bem. Vale olhar com atenção para quatro pontos:

  • Cores. Os significados mudam. Em vários países da Ásia, por exemplo, o branco é associado ao luto.
  • Símbolos. Gestos, animais e ícones podem ter leituras diferentes da que temos aqui.
  • Fotografia. O público precisa se reconhecer nas pessoas e nos lugares das imagens.
  • Tom de voz. A proximidade brasileira encanta em alguns mercados e soa informal demais em outros.

Bilíngue desde o primeiro dia

Quem vende entre dois países precisa de uma marca que funcione nas duas línguas desde o começo, e não de uma tradução feita às pressas depois. Isso significa pensar junto:

  • Nome e assinatura que fazem sentido nos dois idiomas, ou uma versão para cada um.
  • Textos da marca escritos em cada língua, com o mesmo tom, não traduzidos palavra por palavra.
  • Site com uma versão por idioma, organizado para o Google e as inteligências artificiais entenderem qual mostrar em cada país.
  • Presença local: perfil da empresa no Google, avaliações e redes pensadas para o país onde você está.

É por isso que a Marca Viva, a plataforma em que o estúdio entrega as marcas, também existe em inglês, como Living Brand Platform.

Proteja a marca antes de lançar

O registro feito no INPI vale só no Brasil. Para ter proteção em outro país, é preciso registrar a marca lá.

Desde 2 de outubro de 2019, o Brasil faz parte do Protocolo de Madri, um tratado que permite pedir proteção em vários países com um único pedido feito pelo INPI, a partir de um pedido ou registro de marca no Brasil. Se a sua empresa foi aberta no exterior, o caminho começa pelo órgão de registro do país onde ela está.

Antes de imprimir qualquer coisa, confira três itens: o nome nos órgãos de registro dos países onde vai vender, o domínio do site e os perfis nas redes.

Este texto não é orientação jurídica. Para registrar sua marca, procure um especialista em propriedade intelectual.

Identidade visual da Onrange criada pelo Estúdio Fábio Cambréa
Onrange, identidade visual do Estúdio Fábio Cambréa

Exemplo real: uma marca australiana com olhar brasileiro

A Onrange é uma marca de nutrição funcional de Adelaide, na Austrália, que tem uma brasileira entre as pessoas por trás do negócio.

O nome e a identidade foram pensados em inglês, para o público australiano. O Brasil não aparece no logo nem nas cores. Ele está na história da marca e no cuidado com cada detalhe.

É o terceiro caminho na prática: uma marca local, criada com o olhar de quem veio de fora.

Perguntas frequentes

Preciso de um nome em inglês para vender fora do Brasil?

Não necessariamente. Você precisa de um nome que funcione no mercado onde vai vender. Um nome em português pode até ser um diferencial, desde que seja fácil de falar e não tenha um significado estranho por lá.

Devo usar verde e amarelo na minha marca?

Só se a brasilidade for o centro da proposta, e mesmo assim com cuidado para não virar clichê. Existem outras formas de expressar o Brasil: tipografia, ritmo visual, fotografia e tom de voz.

Registrar a marca no Brasil protege lá fora?

Não. O registro no INPI vale apenas no Brasil. Para proteger a marca em outro país, é preciso registrar lá, diretamente ou pelo Protocolo de Madri.

Vai empreender fora do Brasil?

O Estúdio Fábio Cambréa atende de forma remota empresas no Brasil e no exterior, muitas delas de brasileiros que empreendem fora do país. Todo projeto começa por um diagnóstico do seu momento e do mercado onde você está.

Sua marca pode ter sotaque. Só não pode se perder na tradução.

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